
Não é raro, acontece quase sempre: a fala da cientista Márcia Barbosa é interrompida repetidamente por um homem, ansioso para mostrar que sabe mais do que ela. E Márcia não entrou na Física ontem. Ela é ninguém menos que Márcia Cristina Bernardes Barbosa, atual reitora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), membro titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e da Academia Mundial de Ciências (TWAS). Em janeiro, foi eleita vice-presidente para Liberdade e Responsabilidade na Ciência do Conselho Internacional de Ciência (ISC). Sua trajetória revela o quão distante o Brasil ainda está da equidade de gênero e como os estereótipos machistas persistem na Física e nas Ciências Exatas. Por isso, datas como o Dia Internacional das Meninas e Mulheres na Ciência, comemorado em 11 de fevereiro, são mais do que celebrações: são dias de luta.

“Há um estereótipo no Ensino Fundamental de que meninas são princesas, enquanto as ciências exatas são para meninos, que podem ser nerds. E, à medida que avançamos na carreira, tornamo-nos as únicas mulheres na sala. Tenho muitos anos de estrada, muita reputação, e ainda assim sofro com o ‘mansplaining’, o ‘macho palestrinha’. Sou especialista em uma área e aparece alguém querendo me explicar aquilo em que sou especialista, como se o simples fato de ser homem o tornasse mais qualificado. Seja jovem ou experiente, as interrupções em conferências, o ‘manterrupting’, são frequentes. E, se uma mulher é assertiva, logo é taxada de histérica. Uso o humor para contornar isso, especialmente quando o homem fica raivoso. Essa é uma característica minha”, diz Márcia, em entrevista ao Boletim SBF. “Obviamente, é algo que incomoda. Homens são treinados para serem mais contundentes. Quando uma mulher age da mesma forma, foge à regra. Parece que ser insistente nos é proibido.”
Concorda com Márcia Barbosa a cientista Rita de Cássia dos Anjos, professora da Universidade Federal do Paraná – Setor Palotina (UFPR) e especialista no estudo de raios cósmicos e raios gama. “Veja o quanto a Márcia ascendeu nos últimos anos: tornou-se reitora de uma grande universidade e é uma pesquisadora de excelência. E, ainda assim, sentimos que somos vistas como inferiores entre nossos pares. Isso não acontece só no Brasil, mas também no Norte Global, especialmente com mulheres do Sul Global”, diz Rita, que há seis meses realiza pesquisa no Instituto Max Planck, na Alemanha.

Rita foi a vencedora do Prêmio Carolina Nemes de 2023, concedido pela Sociedade Brasileira de Física (SBF) em 2024. Ela também observa um tratamento diferenciado em relação às mulheres do Norte Global. “Mulheres do Norte Global são vistas como tendo muito a contribuir. Já mulheres do Hemisfério Sul – sejam indianas, brasileiras ou chilenas – são frequentemente tratadas como colaboradoras e não líderes.”
Invisibilidade
No ano passado, Márcia Barbosa publicou, com outros cientistas, a pesquisa “Gênero e o efeito tesoura na ciência brasileira: da igualdade à invisibilidade”, na Revista Brasileira de Pós-Graduação. O estudo analisou a presença feminina na ciência brasileira e constatou que, apesar da participação inicial elevada nos estágios acadêmicos iniciais, há uma redução progressiva conforme a carreira avança, resultando em invisibilidade em posições de prestígio e poder.
A pesquisa, que analisou 8.877.626 pessoas ao longo de 15 anos, identificou que essa queda não se deve apenas à maternidade ou à produtividade científica, mas a um conjunto de barreiras estruturais que perpetuam desigualdades de gênero no campo científico. Esse fenômeno é chamado de “efeito tesoura”, pois mostra que, embora as mulheres sejam maioria entre estudantes de graduação e pós-graduação, sua representatividade diminui drasticamente em cargos de liderança e instâncias decisórias. Para os autores do estudo, superar esse cenário exige mudanças institucionais e ações concretas para eliminar as barreiras de gênero na ciência.
Além dos estereótipos de gênero, cientistas enfrentam desafios na constituição da família e no cuidado com os filhos. “Conciliar carreira e família é um obstáculo para qualquer profissão, mas na ciência a situação é mais grave, pois exige viagens frequentes para conferências. O impacto é ainda maior em áreas como a física teórica, que são mais individualizadas. Nesses campos, o percentual de mulheres é menor, especialmente entre aquelas que são mães. Muitas são excluídas do circuito”, explica Márcia.
Família e Ciência
Para minimizar essas dificuldades, Janaína Dutra, física médica do Departamento de Medicina Nuclear do Instituto Nacional de Câncer (INCA) e integrante da Comissão de Justiça, Equidade, Diversidade e Inclusão (JEDI) da SBF, conta que a comissão sugeriu ao conselho da entidade que eventos promovidos pela SBF contemplem espaços para crianças, permitindo que cientistas possam levar seus filhos.
“Muitas vezes, conseguimos comparecer ao evento, mas não temos com quem deixar as crianças. Também estudamos formas de apoio a físicos e físicas que vivem longe dos grandes centros, para que possam participar. Essas são algumas das ações da JEDI para tornar o ambiente acadêmico mais igualitário”, explica Janaína, também pesquisadora de pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação em Ensino de Matemática (PEMAT) da UFRJ, onde participa do grupo de pesquisa MatematiQueer – Estudos de Gênero e Sexualidades em Educação Matemática.
Chegar até aqui também foi um desafio para Janaína, que lembra bem das reações que enfrentou ao decidir estudar Física. “Na minha turma da faculdade, dos 120 alunos, apenas 5% eram mulheres. E a taxa de conclusão entre as mulheres foi ainda menor. Durante a graduação, ouvi comentários machistas, como dizerem que as mulheres do curso seriam ótimas esposas porque sabiam termodinâmica e nunca queimariam um bolo. São microagressões diárias. Apesar de avanços, sei que qualquer crise pode significar retrocessos”, diz Janaína.
Perspectivas
Camily Vitória, 21 anos, estudante de Licenciatura em Física na UFRJ, lembra que enfrentou preconceito dentro da própria família por escolher esse caminho. “A maioria das pessoas não sabe o que um físico faz. Meu maior medo, no entanto, é a falta de perspectivas, pois tenho grandes sonhos, mas sinto que há poucas oportunidades para alcançá-los”, diz a jovem, que deseja atuar na divulgação científica. “Além de ser uma área pouco valorizada, há a barreira de ser mulher. Muita gente ainda associa a Física a um homem velho e barbudo.”

Edyla Brunnyely Oliveira da Silva, 19 anos, estudante de Licenciatura em Física na Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT), em Araguaína, teve o interesse despertado no Ensino Médio por um professor que promovia atividades lúdicas, como a construção de pipas geométricas. Apesar disso, ela teme não conseguir atuar na área, tanto pela falta de oportunidades em sua cidade quanto pela predominância masculina nas escolas. “Escrevi uma redação sobre as dificuldades das mulheres na ciência. Muitas desistem porque precisam conciliar trabalho, estudos e outras responsabilidades, como tarefas domésticas e cuidados familiares, e isso pode ser um desafio significativo, principalmente para as que são casadas e constituem família”, diz Edyla.

Já Ana Ester Pereira Ribeiro, 24 anos, de Cuiabá, no Mato Grosso, se inspirou numa personagem do seriado C.S.I Investigação Criminal para seguir a carreira de cientista. Conseguiu entrar no curso de bacharelado em Física na Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT). Mas, aos 45 do segundo tempo, no sétimo semestre, está buscando transferência para a Licenciatura. Segundo ela, a inspiração foi a sua mãe, professora particular. Ana Ester ouviu da mãe que faltava professores de Física e Matemática para dar aula de reforço às crianças, o que a motivou desistir, por enquanto, da carreira científica.

“Eu me interessava tanto por Física e Matemática no Ensino Médio, mas as crianças de hoje em dia não estão afim disso, como isso é possível? Aí eu falei: eu vou mudar isso”, conta, entusiasmada. Outro motivo que a levou a pensar é assim é o fato de ser coordenadora do Show de Física da UFMT, no qual alunos do Ensino Fundamental visitam a UFMT para aprender uma forma divertida e instigante. “Além disso, faltam mulheres na Licenciatura. Dos 22 professores no Instituto de Física, apenas cinco são mulheres”, explica Ana Ester. “Meninas e mulheres na ciência, sigam sua paixão e enfrentem obstáculos juntas. Sozinhas vamos mais rápido, mas juntas vamos mais longe”, aconselha Márcia Barbosa.
(Colaborou Roger Marzochi)